Pegadas da vida íntima

“A artista brasileira Regina Vater, que hoje vive isolada em um sítio no estado do Rio de Janeiro, fala a Bazaar sobre o processo de seu livro-obra X-Range, feito na década de 1970 e que ganha reedição pela Editora Ikrek. Para o projeto, fotografou 60 residências, entre elas as de Vito Acconci, Hélio Oiticica, Lygia Clark e John Cage. em depoimento a Felipe Stoffa.”

“Estive em Paris entre 1974 e 1975. Fui sozinha, quando o Brasil passava pela forte repressão da ditadura militar. Uma amiga me aconselhou a não me dar com brasileiros, já que estavam todos fichados e isso traria problemas no meu retorno. Aconteceu que fiquei muito  catatônica, isolada, e a sensação me lançou em uma forte depressão. Para lutar contra isso, comecei a fotografar minha cama. Passava muito tempo no apartamento e as horas eram tomadas por leituras e estudos de francês. Lembro-me que essas fotos eram como captar a espuma de meus sonhos e pesadelos. O mais curioso é que muitas pessoas achavam que, na verdade, tinha um amante e clicava o quarto após o sexo.

Os primeiros esboços desse projeto se deram por eu estar muito focada em observar o espaço poético das outras pessoas. Esse livro está conectado a um trabalho mais amplo, em que retratei cerca de 60 residências, de conhecidos e desconhecidos, gente de todas as classes sociais, desde peões de fazenda até diplomatas e colecionadores.

A primeira casa que fotografei foi a de Lygia Clark, em Paris. Fomos apresentadas uma à outra pelo Mario Pedrosa. A residência dela era extremamente simples, muito monástica. Ela vivia em um apartamento num lugar distante da cidade. Nosso contato não foi maravilhoso, pois ela também não estava bem. Anos depois, me confessou que sentia a cidade como um campo de concentração.

Aconteceu que antes, em 1972, ganhei uma viagem como prêmio de um salão. Fui a Nova York e lá conheci o Hélio Oiticica. De imediato, ficamos muito próximos, minha relação com ele, inclusive, me salvou de momentos difíceis que passei na cidade. Então, aquele encontro com Lygia foi porque estava tentando, de alguma forma, enxergar nela o próprio Hélio. Em 1976, quando retornei aos Estados Unidos, fotografei a casa dele. Era uma residência ultracriativa. Ele não tinha dinheiro, os quadros eram fotos coladas direto na parede. Mas a casa era uma invenção! Já Vito Acconci conheci quando solicitei a ele uma entrevista. Não posso afirmar que ficamos amigos, mas acho que nosso encontro foi bem marcante. Conversamos durante uma tarde inteira e fotografei seu estúdio. Não sei se ele morava ali, confesso que aquele lugar era um negócio frugal, muito simples e repleto de obras.

Fui convidada para participar da Bienal de Veneza em 1976. Nessa época, trabalhava como freelancer para revistas. Era minha maneira de sobreviver e fazer arte sem influência do mercado. Tentei armar uma entrevista com John Cage, estava louca para conhecê-lo, e me encontrei com Giancarlo Politi, editor da Art Diary e fundados da Flash Art. Ele era um cara famoso, mantinha um catálogo de telefones e endereços de todos os atistas do mundo. Quando nos cruzamos, eu disse: “Estou com uma missão de encontrar John Cage”. Politi me providenciou o endereço e o telefone.

Ao sair de Veneza, passei por Nova York antes de voltar ao Brasil. Logo que pousei, telefonei para Cage. A mulher que atendeu disse que ele não estava na cidade, mas, quando retornasse, me avisaria. Fui ao cinema e assisti a um filme terrível, que me deixou acabada. No dia seguinte, a secretária de Cage me ligou: “Olha, consegui, mas precisa ser amanhã, às 9h”. Depois disso, o humor voltou à minha vida.

Muito contente, fui encontrá-lo em um basement no bairro do Village. Logo que entrei, ele estava ocupado. Me pediram para aguardar em uma sala e fui espiar a casa. Ele tinha uma cama de solteiro, uma mesa com poucas cadeiras e muitas plantas. Todas as partituras estavam em caixas no chão e não me lembro de estantes. Os livros estavam empilhados, como de alguém que acabou de se mudar. Ao final da conversa, pedi licença para tirar as fotos. Senti que ficaríamos amigos para a vida toda.

Todas as imagens foram captadas antes de 1977, quando realizei uma exposição em Buenos Aires. Eu tinha um amigo argentino, e, de certa forma, ele e o galerista me convenceram a organizar o material. Decidi por uma publicação que mostrasse a simplicidade da casa dessas pessoas que admirava tanto. Hoje em dia, elas estão no Olimpo, mas lutaram muito na vida. Junto, escrevi uma palavra, coisas pequenas, ou até mesmo uma frase que definisse cada personagem. Tudo muito poético, meu trabalho é inspirado pela poesia.

Quando fotografava esses lares, queria que as imagens guardassem os gestos de seus donos, como eles arrumavam e desarrumavam os objetos. São pegadas do viver em um ambiente, escolhas de como organizar um espaço íntimo. Não tenho uma fotografia preferida, mas me chama atenção a confusão do Hélio, apesar das residências de Cage e Lygia me tocarem pela simplicidade. Cage uma vez me falou que o que acontece no mundo é uma falta de disciplina. As pessoas vivem uma ânsia enorme em adquirir mais e mais. No final, a balança pesa para um lado só.”

X-Range/ Regina Vater/ Harper’s Bazaar Art/ Pegadas da vida íntima/ Felipe Stoffa

2017